Brazilcore: Quem Lucra?

O mundo veste Brazilcore. Mas o Brasil ainda não decidiu o que vai cobrar por isso.

“Um dia eu escrevi uma música que se chama Bahia. E escrevi essa música sem nunca ter ido lá. E agora estou contente por terem me dado a oportunidade de vir aqui ao Brasil, porque eu vou correr pra lá. Vou dizer a vocês… aqui está, Bahia.”
— Véronique Sanson, 1980 (Si tu vas à Rio)

C’est curieux hum…

Essa foi uma carinhosa fala da francesa Véronique Sanson em sua declaração de amor a uma terra distante chamada Brasil, sem nunca antes ter pisado aqui hein.. é uma honra. É como se esse sem vergonha, carismático, problemático e caloroso Brasil pudesse aquecer o frio coração europeu. Curioso. Esse ano e nos anos anteriores a Europa tem passado por um verão de calor excessivo, em outras palavras tão passando na pele o que a gente passa, e mais curioso ainda, estão enfrentando o verão vestidos de… Brazilcore.

O que é esse Core?

A Vogue Business lançou uma matéria recente, muito bem escrita por sinal pela Ana Reitz, que diz: “O ‘Brazilcore’ está em alta. Como as marcas internacionais podem entrar nessa?”. Primeiro vamos entender que core é um sufixo que em geral significa centro, núcleo, então é como se essa bela superfície do Brasil fosse capturada em frações: as cores vivas, a bandeira performática, a música cheia de batuque, a exótica Amazônia, o badalado carnaval, o futebol arte do joga bonito, o clima que eles acham ser perfeito, a hospitalidade, haaa e não posso esquecer do mais importante, a sensualidade que eles vêem nos recortes das roupas, no jeito de falar e até na própria língua que soa como se estivesse cantando. Agora é só misturar isso tudo num pote, sacudir e voilà, tá pronto o core do Brasilcore na visão do gringo. O Brasil é isso? Obviamente não, mas calma.

Os extremos e os excessos são cortados quando a gente fala do core, mas antes. Pra ninguém me chamar de mentiroso olha o lançamento do Ray, um streamer de Taiwan famoso nos EUA, conseguem achar a referência do Brasil? Que tal a Cactus Jack do Travis Scott, ou a Vogue Business desenhando pra marcas gringas que estampar Brasil na roupa é mais lucrativo, inclusive a matéria diz que marcas brasileiras com essa estética tendem a performar melhor, com interesse de até 204%. E isso porque tô falando só de roupa, não falei de marca de óleo, de coco, de açaí e várias outras.

O que sobra pro Brasil?

Em resumo, o Brazilcore é o novo Premium e tão pagando caro pelo que vem estampado Brazilian, mas a que custo? Ou a que retorno? Pra marca gringa o retorno é óbvio, são os 204% a mais de interesse e possivelmente venda, mas e pro Brasil o que sobra? E na verdade esse tem sido o debate que muitos profissionais da área têm levantado, não só por equidade no sentido de retribuir a quem te dá lucro, afinal tão sugando até a alma da nossa cultura, mas tem algo mais fundo aí, que é questão lógica.

Imagina, se só como referência, sem dinheiro, um país isolado de tudo e de todos, que consome mais a sua música do que a de fora, desigual tanto quanto orgulhoso, conseguiu se tornar protagonista no que diz respeito a cultura, economia criativa, comportamento e muito mais… Imagina o que essa galera não faria com investimento na mão, fotógrafo, criativo, stylist, pesquisa, produção.. o Brasil tem tudo, inclusive a Europa hoje veste uma fração da capacidade desse tudo, mas sem ter sido feito ou ter parte nossa nela.

Ainda é fácil se apaixonar pelo Brasil de longe, é conveniente, é “lucrativo” no mercado de tendência, mas quem tem pensado no longo prazo desse sem vergonha, carismático, problemático e caloroso Brasil?! é curioso.