Estética di Cria: a moda que os playboy copia

“Quero andar igual os cria”

Tem uma ironia incômoda nisso tudo. Por décadas, o discurso que vinha de fora tentou empurrar a favela pra margem, vender a ideia de que dali só nascia problema. Só que esse cerco produziu o efeito contrário: os próprios filhos de quem sustentava esse discurso passaram a se aproximar, curiosos, até virarem presença fixa nos bailes. O resultado está aí, os playboys com corte de jaca, as patys querendo ser e circulando por onde antes só apontavam o dedo. Não é coincidência: é confissão. Identidade, que eles só encontraram olhando pra favela.

(In)cômoda

Não tem nada de errado em querer sair da própria bolha e buscar pertencimento, isso é humano. O problema é a direção escolhida: em vez de reconhecer de onde vem essa estética, prefere-se absorver a superfície e devolver algo esvaziado. Porque a favela representa exatamente o oposto dessa lógica: uma linguagem carregada de história, que resiste a virar padrão genérico, essa moda “neutra” que dilui qualquer marca de origem de quem veste.

“A nossa história é sobre acreditar que nossas origens não limitam o nosso futuro. Tudo o que construímos até aqui faz parte da nossa identidade.” – João Victor, fundador da marca VerdeRosa, em entrevista ao Jornal Extra, no desfile de lançamento da nova coleção no Morro da Mangueira

É cool usar favela?!

Sobre a criatividade que nasce na favela, não cabe ressalva nenhuma, o talento nunca foi a questão em aberto pra quem é cria. O que mudou foi o mercado enxergar lucro numa estética que passou anos sendo ignorada, quando não rejeitada abertamente. Fica então a pergunta que interessa: de quem, na prática, esse consumidor está comprando?

Porque no fim, o ponto nunca foi discutir se a favela tem ou não talento pra ditar moda, isso já está provado, é identidade pura, construída na prática, sem precisar de validação de ninguém de fora. A discussão real é sobre justiça: quem criou a estética, quem sustenta os becos, as quebradas, os ateliês e os brechós que inventaram essa linguagem antes dela virar tendência de vitrine, é quem tinha que estar lucrando com isso. Favela não quer só ser copiada, quer ser paga. E enquanto o crédito e o dinheiro continuarem indo pra quem só soube repetir o que viu, a conta segue errada.